Fábio Gandour
FÁBIO GANDOUR, 57, é Cientista-Chefe da IBM Brasil
Não pensem vocês que trazer o problema para essa coluna vai ser suficiente para resolvê-lo! E nem vai diminuir a minha angústia de tentar encontrar um estagiário que seja capaz de descrever um experimento técnico com um mínimo de precisão e com a garantia de entendimento por parte de quem lê ou ouve a descrição. Portanto, movido pela ansiedade de encaminhar uma solução, descrevo aqui o problema e continuo lidando com ele. Às vezes, lá na base da organização, onde estão os estagiários, mas também lá em cima, onde estão os diretores. A dificuldade de expressão técnica, oral e escrita, está democraticamente distribuída em todos os níveis.
Nesta hora, é inevitável seguir refletindo sobre um assunto que começou micro na última coluna e agora, rapidamente, se transforma em algo macro, bem maior que apenas a educação com e para a tecnologia. Trata-se da educação em geral, à luz dos novos recursos tecnológicos existentes a cada dia e que tanto se modificam quanto se espalham com uma capilaridade incontrolável!
Neste sentido, os que se encontram mais próximos certamente se recordam de ter me ouvido falar sobre uma preocupação que não me abandona: considerando a incorporação massiva de meios de comunicação cada vez mais sumários, por exemplo o Twitter e seus 140 caracteres, como vamos distribuir conteúdos indispensáveis para criar a base de conhecimento essencial para certos profissionais? Este círculo mais próximo já me ouviu dizer, por exemplo, que eu não me sentiria confortável em me entregar aos cuidados de um médico que adquiriu seus conhecimentos de Medicina em pedacinhos de 140 caracteres! No entanto, as novas formas de aquisição e gerenciamento da informação, fundamentais como matéria prima do conhecimento, continuam proliferando em versões cada vez mais resumidas. Enquanto proliferam, vão se conectando como peças de um quebra-cabeça que produz imagens onde muitas coisas são absolutamente novas e outras, ainda que pareçam novas, são tão antigas quanto o desígnio biblico do Gênesis, que diz “Comerás o pão com o suor do teu rosto”. É por aí que a gente vai hoje.
Começando pelo hoje, um dos criadores do Twitter, chamado Isaac “Biz” Stone, e que faz questão de manter uma aura de charme em torno da própria idade, deixando apenas transparecer que nasceu na década de 70 – em 10 de março de 197? – (http://en.wikipedia.org/wiki/Biz_Stone), comentou na Conferência de Doha em novembro último, que “...o Twitter é uma rudimentar rede de conexão social...” e que, segundo ele, “... há muito a fazer para tirar proveito dos 4,4 bilhões de telefones celulares e de 1 bilhão de contas de Internet espalhadas pelo planeta...”.
Bom de memória técnica que sou, me lembrei de uma outra frase no mundo das ciências, construída por Richard Feynman, ganhador do prêmio Nobel de Física de 1965, que disse: “Há bastante lugar (espaço) lá embaixo”, para ilustrar o quanto ainda se poderia fazer em um mundo de dimensões minúsculas. E daí, simplesmente nasceu a Nanotecnologia!
A ponte criada por Richard Feyman foi entre o seu conhecimento indiscutível de Física Quântica e uma possível nova área que ainda não existia, mas que ele vislumbrava no horizonte. Será que dá para construir algum link entre a assertiva do “Biz” Stone e algo que se encontre no futuro? Tenho a impressão que sim. Mas, para sustentar esta ponte, vamos ter que buscar outros pilares de apoio em áreas correlatas do conhecimento.
Um destes pilares é o trabalho do professor Sugata Mitra, que hoje trabalha na Universidade de Newcastle, na Inglaterra. Em 1999, quando ainda trabalhava no NIIT (http://www.niit.com/), uma instituição nascida na Índia e dedicada ao ensino, o professor Mitra fez um experimento científico com resultados surprendentes que ficou conhecido como “Buraco na Parede” (“Hole in the Wall” – http://www.hole-in-the-wall.com). O experimento consistiu em colocar, literalmente em um buraco na parede, computadores conectados à Internet. O tal “buraco” tinha uma arquitetura bem própria para só permitir o uso por crianças. Estes “buracos na parede” estavam nas regiões mais pobres de Nova Delhi, que bem poderiam se comparar as nossas favelas mais distantes do contexto social aceitável.
A hipótese a ser provada pelo professor Sugata Mitra é que as ciranças conseguiriam descobrir sozinhas o que era isto e o que fazer com isto que existia no buraco. O resultado comprovou amplamente a hipótese. Em pouco tempo, as crianças, muitas delas analfabetas, já conseguiam navegar na Internet e reproduzir algum conhecimento, construído a partir de informações recolhidas nesta navegação exploratória.
Crianças se aglomeram em volta de “buracos na parede”. Lá dentro, estão computadores conectados à Internet
O desconforto de um adulto que tenta se aproximar do “buraco na parede”
O teclado sujo, que em qualquer outro lugar seria sinal de desleixo, aqui é prova do sucesso que o “buraco na parede” fez!
Em resumo, o professor Sugata Mitra demonstrou que as crianças podem adquirir informação motivadas apenas pela curiosidade e que uma ensina à outra, sem a necessidade de um tutor para conduzir o processo. E vamos concluir aqui o primeiro pilar de sustentação da nossa ponte em direção ao conhecimento: os bilhões de celulares que andam por aí e os iguais bilhões de contas de Internet que existem no planeta são todos “buracos na parede” em potencial. Deixados nas mãos de todos, crianças ou não, analfabetos ou doutores em alguma coisa, todos estarão sempre aprendendo algo novo e ensinando outras tantas. Quem sabe algo de motores de automóveis vai ensinar a quem só entende de decoração. Até a “madame” que só quer saber de futilidades das colunas sociais vai acabar aprendendo sobre Economia com alguém ao seu lado no salão do cabelereiro. Basta que todos se coloquem, juntos, diante de algum “buraco na parede”!
Agora, ao outro pilar. E este será construído a partir de um momento de grande disfrute intelectual, que começou com um encontro com o Professor Pierre Lévy, em sua recente passagem pelo Brasil, quando tive o privilégio de estar em uma mesa redonda com ele. Aos menos avisados, vale dizer que o professor Lévy é um Filósofo da Informação e autor do livro “Cybercultura”, um clássico do ramo. Nascido na Tunísia, o professor Pierre Lévy fez a sua carreira acadêmica na França e, desde 2002, é professor titular da cadeira de Pesquisa em Inteligência Coletiva da Universidade de Otawa, no Canadá. Neste encontro, ocorrido no Rio de Janeiro durante a Olimpíada do Conhecimento (http://www.olimpiadasenai.com.br/), foi possível ouvir o professor Lévy discorrer com clareza cristalina e ritmo peculiar de acadêmico francês sobre os caminhos percorridos pelo homem em sua busca por conhecimento. Esse caminho começa na fase da narrativa oral e vai até o que o professor chama de Hipercortex Digital, algo representativo de uma inteligência coletiva totalmente armazenada em algum arcabouço digital, que ele faz muita questão de dizer: não deve ser a Internet.
Entre uma discussão e outra, é claro que lhe perguntei sobre o que mais me afligia: o que será do conhecimento a partir de agora se ele começar a ser distribuído em apenas 140 caracteres? A resposta não poderia ser mais esclarecedora. Segundo o Professor Pierre Lévy, todas essas formas sumárias de representação do conhecimento não são linguagens de distribuição e sim meta-linguagens de localização. Dito de forma mais simples, nos 140 caracteres do Twitter não está o conteúdo a ser conhecido e sim apenas a URL que armazena o conteúdo a ser conhecido. Assim, o texto do Twitter é apenas a meta-linguagem que descreve onde encontrar o conteúdo que, de fato, contém o conhecimento.
Além disso, ou exatamente por isto, acrescentou o professor Lévy, usar o Twitter ou qualquer outro mecanismo de construção e apoio às redes sociais exige tempo e dedicação. Afinal, é preciso primeiro conhecer e depois selecionar muito bem com quem você vai se relacionar e quem você vai acompanhar. Essas pessoas devem ser aquelas que podem te prover a meta-linguagem adequada de localização dos conteúdos que, de fato, irão te interessar. E se elas não forem bem selecionadas, a sua comunicação na rede social só vai conter amenidades e inutilidades, para não dizer futilidades. Pierre Lévy comenta que ele mesmo investe de uma a duas horas diárias cultivando os seus contatos nas redes sociais, inclusive no Twitter. Cultivar, nesse caso, significa rever o que chega, de quem chega e se vale a pena ou não manter aquela fonte. Também significa verificar se alguma outra fonte não deveria ser incluída entre os que serão acompanhados. A partir daí, basta buscar o conteúdo meta-referenciado no Twitter. Feito isso, é só arrumar tempo para ler este conteúdo, entendê-lo para, só então, transformá-lo em conhecimento.
Confesso aqui uma coisa: essa conversa com o Pierre Lévy me deixou aliviado! Eu, que me sentia até meio anormal por achar que Orkuts, Facebooks, Twitters e similares só têm futilidades, aprendi uma lição: eles só terão futilidades se os participantes das redes nas quais me incluo são pessoas que preferem falar de amenidades. Simples assim! E aí, concluímos o segundo pilar que deve sustentar a ponte do conhecimento em direção ao futuro.
Recapitulando: um pilar é formado por bilhões de “buracos na parede” que permitem a contrução do que estamos chamando de redes sociais. Acho até este nome meio inadequado porque se o que está aqui de fato começar a acontecer, essas redes serão tudo, menos “sociais”. Mas por enquanto, não tem outro nome. O outro pilar é formado pelo conceito que por meio desses “buracos na parede” virão referências (meta-linguagem) de localização de conhecimento selecionadas e enviadas pelos demais membros da(s) rede(s) social(is) da(s) qual(is) você faz parte. Selecionou bem, vem coisa boa. Selecionou mal a rede e seus membros, só vem porcaria.
É por esta ponte totalmente nova em todos os sentidos, do tecnológico ao comportamental, que podemos caminhar em direção ao futuro. Será que há algo de antigo nesta caminhada? A resposta é sim, evocando agora o mesmo versículo do Gênesis: “Comerás o pão com o suor do teu rosto”! Neste caso, “o suor do teu rosto” é o longo trabalho e dedicação exigidos para a criação de tudo que é sólido e perene. Por exemplo, o professor Sugata Mitra dedicou uma vida inteira para estudar várias áreas antes de “comer o pão” da glória trazida pelo sucesso dos “buracos na parede”. O Professor Pierre Lévy é outro que dedicou uma vida quase inteira ao estudo da Filosofia da Cognição, antes de criar o conceito de Inteligência Coletiva em 1994. E apesar de não saber quanto tempo o “Biz” Stone levou para bolar e implementar o Twitter, fique você sabendo que ele já escreveu dois livros sobre blogs. Numa escala bem menor, até este artigo se transforma em “pão de conteúdo”, ele exigiu o “suor do meu rosto” durante, pelo menos, umas 12 horas de pesquisa e redação. Vale até dizer que dessas 12, umas quatro foram na tarde de um domingo. Enfim, sem ralação não há produção! Me diz aí, em o quê você anda ralando mais ultimamente?

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