O Brasil ainda precisa se preocupar mais com o uso tecnologias sustentáveis e o descarte correto dos resíduos de TI - mas já existem projetos pontuais no país. Conheça alguns
Renan Dissenha Fagundes
TECNOLOGIA PARA ECONOMIZAR
Com etiquetas eletrônicas ao invés das tradicionais de papel supermercados podem diminuir gastos e até os transtornos causados por preços errados
Com etiquetas eletrônicas ao invés das tradicionais de papel supermercados podem diminuir gastos e até os transtornos causados por preços errados
Um dos problemas do Brasil é que não há uma definição do governo federal sobre o tema. Os “padrões verdes” usados nos Estados Unidos e na Europa ainda não foram adotados por aqui. “Em outros países o governo teve um papel importante na adoção desses padrões”, afirma Renata Serra, da empresa de consultoria Booz & Company. Quando o governo adota uma política de sustentabilidade, ele faz com que a indústria comece a produzir dentro desse padrão - o governo é um cliente muito importante para as empresas de tecnologia. A não existência dessa política de TI verde não impende a existência de projetos dentro dessa área no Brasil.
Há duas frentes em que o uso de tecnologia da informação deve ser pensado de uma forma mais sustentável: como usar tecnologia sem ofender o ambiente, e como usar a tecnologia para não ofender o ambiente. Para a TI em si ficar mais sustentável, é preciso comprar equipamentos ecologicamente corretos e diminuir o consumo de energia desses equipamentos. Também é importante o uso da computação em nuvem (serviços como Google Docs) e de servidores virtuais, que economizam energia. A Dell, por exemplo, deixa de gastar US$ 200 milhões por ano por conta da virtualização de seus servidores. Usando máquinas virtuais, a HP diminuiu há quatro anos seus data centers de 85 para 6.
Usar tecnologia para deixar outras práticas mais sustentáveis envolve a automação de processos, e coisas como, por exemplo, programas de gestão de frotas. “TI verde não é só sustentável”, afirma Renata Serra. “É uma forma de reduzir custos.”
Uma coisa simples como melhorar o uso de impressoras pode fazer muita diferença. Segundo Cláudio Martins, diretor de Tecnologia da Informação da GM no Mercosul, a empresa diminuiu o número de páginas impressas de 52 milhões, em 2002, para 28 milhões, em 2009. Isso foi feito trocando o sistema de impressão: entender a impressão como um serviço centralizado, pago por página. O número de impressoras caiu de 1.600 para 360.
“Ser verde é bom para a imagem corporativa da empresa”, afirma João Bezerra Leite, diretor de Infraestrutura e Operações de TI do Itaú Unibanco. Segundo Leite, em 2009 e no começo de 2010, o Itaú descartou 220 toneladas de lixo eletrônico, das quais 98% foram recicladas. O Itaú Unibanco também investe em soluções sustentáveis como o uso de programas de mensagem instantânea na comunicação interna dos bancos e de salas de telepresença, que economizam gastos com transporte. “Hoje se eu precisar falar com Nova York vou em uma sala e falo”, afirma Leite. “E nós nos consideramos amadores, estamos trabalhando para melhorar, para entender.”
Mais ambicioso é o projeto do Grupo Pão de Açúcar para abastecer a rede de supermercados, com precisão, conforme a demanda. Para Alexandre Vasconcellos, diretor de TI do grupo, hoje eles trabalham com um "sistema de abundância em excesso": “Nós trabalhamos com o nível de estoque muito alto, temos mais mercadoria do que precisamos e mesmo assim o consumidor pode não encontrar o que quer. É um paradoxo”. A ideia do Pão de Açúcar é trabalhar com modelos estatísticos para evitar desperdício de mercadoria e diminuir o nível de estoque. “Estamos treinando 4 mil pessoas neste ano, mas é preciso fazer a gestão de mudança de cultura desses funcionários.”
Outra ideia do Pão de Açúcar é substituir as etiquetas de preço em papel por etiquetas eletrônicas. A troca já foi feita em três lojas da rede, um Pão de Açúcar em São Paulo e outros dois supermercados em Brasília. Segundo Vasconcellos, em um Pão de Açúcar na capital federal foram instaladas 14 mil etiquetas eletrônicas, que substituem 16 mil etiquetas de papel gastas por mês. A outra loja em Brasília, um Extra, recebeu 50 mil etiquetas eletrônicas, que substituem 32 mil etiquetas de papel por mês. “Estamos trabalhando em conjunto com as redes concorrentes para diminuir os preços da etiqueta eletrônica”, afirma Vasconcellos.
Renata Serra, da Booz & Company, afirma que a TI verde deve fazer parte das diretrizes das empresas. “É preciso uma governança nas práticas de TI das empresas, bem definida, não só projetos pontuais”, afirma Renata.
Em relação às medidas que podem ser adotadas pelo poder público, as eleições estão aí e tecnologia da informação sustentável é mais um tema que deve ser discutido. Se uma definição do governo para a adoção de padrões de TI verde é necessária, vale saber quais são as propostas dos candidatos para a área. O que você acha?

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