Sites brasileiros estão vendendo amuletos do amor com a genitália de golfinhos da Amazônia.
Aline Ribeiro. Com Alexandre Mansur, de Belém
O dom-juan amazônico não tem olhar sedutor nem cabelos esvoaçantes. Diz a tradição que ninguém naquelas bandas é tão atraente quanto o boto-cinza (tucuxi, para os íntimos), um parente próximo dos golfinhos do mar, mas que vive em rios. Segundo a lenda, à noite o bicho sai das águas e se transforma em um rapaz elegante e cordial, irresistível a qualquer senhorita. O mito é tão presente no imaginário popular que, há décadas, os predicados do boto viraram oportunidade de negócio. Na Região Norte, os mercados municipais vendem pequenos vidros com pedaços dos órgãos sexuais do animal imersos no óleo ou no perfume, como amuletos do amor. São ampolas de vidro cujo rótulo anuncia o poder de sedução do boto. Prometem ajudar a amarrar para sempre o amado ou a amada. Mas são ilegais: vender pedaços de bichos da fauna brasileira é crime ambiental. ENGANO
Adulto e filhote de botos-cinza. Partes deles são vendidas no amuleto, como se fossem do boto-tucuxi da lenda amazônica. O comércio já foi parar na internet
Adulto e filhote de botos-cinza. Partes deles são vendidas no amuleto, como se fossem do boto-tucuxi da lenda amazônica. O comércio já foi parar na internet
Embora proibida, a venda continua também no tradicional mercado Ver-o-Peso, em Belém, Pará. As cerca de 60 “erveiras” que oferecem garrafadas e outros preparados com plantas nativas vendem discretamente o vidrinho com a genitália do boto. O produto fica guardado dentro da barraca. “A gente tem de ser discreta por causa das câmeras”, afirma uma erveira, apontando as lentes do sistema de segurança do mercado. O vidro custa R$ 5. “Se a gente for pega vendendo isso, paga multa de R$ 500. É proibido porque o bicho está ameaçado”, diz. Além dos amuletos, os comerciantes colocam na prateleira a genitália toda ou até o olho do bicho, talismã dos mais cobiçados.
Além de nociva aos botos, a venda dos amuletos do amor é enganosa. Há dois anos, a bióloga Thais Sholl, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), pesquisou os vidrinhos. Ela extraiu o DNA de 34 amostras de tecidos encontrados nos mercados de Belém e de Manaus e concluiu que todos tinham vindo de botos. Mas não do tucuxi (Sotalia fluviatilis) da lenda nem do famoso boto-cor-de-rosa, que vive na mesma região. Tratava-se do Sotalia guianensis, um boto marítimo – o golfinho – avistado em toda a costa do Brasil. O animal, com cerca de 1,70 metro, é capturado pelos pescadores na Bacia do Marajó, ao norte de Belém, e na costa do Amapá.
A captura “acidental” dos botos não é crime. Mas eles morrem do mesmo jeito. Um estudo feito pelo Grupo de Estudos de Mamíferos Aquáticos da Amazônia (Gemam) mostra que uma rede de pesca normalmente sai da água com quatro botos. Multiplicado pelos milhares de barcos de pesca do Brasil, o número preocupa. Em 2007, um técnico contratado pelo Ibama flagrou uma embarcação com mais de 80 botos mortos na costa do Amapá. Ninguém foi preso nem multado. Não se sabe ao certo o impacto sobre a população dos botos. O próprio grau de conservação do animal é indefinido. Mas o Ibama, responsável por fiscalizar os impactos da pesca e a morte dos botos, está menos rigoroso. No dia 21 de outubro, por pressão de representantes da pesca industrial, suspendeu por dois meses a restrição a redes com mais de 2,5 quilômetros de comprimento – que favorecem a captura de botos e baleias. O equipamento era proibido desde 1998.
A pesquisadora Thais Sholl diz concordar com as erveiras. “Depois de o boto morto, não faz diferença tirar ou não a genitália.” Por isso, diz Thais, mais que fiscalizar o comércio de órgãos, o caminho para reduzir a matança é incentivar uma pesca mais cuidadosa.

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