6:12 | seg , 27/12/2010 Laura Lopeslivros, orgasmo, pornografia, sexo Tags: a história do olho, bataille, pornografia
“É o livro mais pornográfico que já li na vida”, disse um amigo, ao passar para as minhas mãos A História do Olho, primeiro livro do filósofo francês George Bataille (1897/1962). A obra foi escrita em 1928 com a intenção de ser uma sessão de descarrego: o autor era tão perturbado pelos seus pensamentos sujos e lascivos, e pela culpa que eles geravam, que seu psicanalista, pupilo de Freud, pediu que ele despejasse todo o sofrimento em palavras escritas. O resultado é um livro no qual nenhuma linha é privada de perversão. A pornografia vira violência, escatologia e tensão psicológica em um mundo de desvarios e alienação. São relatos de um jovem que vive experiências sexuais extravagantes com Simone, amiga de mesma idade. A instituição da família e da Igreja são mais do que atacadas: são fuziladas. Qualquer relação com a obra de Marquês de Sade não será mera coincidência.A narrativa, em si, já começa com devassidão, sem nenhuma embromação. As cenas podem ser perturbadoras para os mais pudicos, mas até animadoras para os safadinhos. Só que o fim é terrível, de uma crueldade que representa o instinto mais selvagem do ser humano – ou a epifania do sagrado. A obra foi publicada sem o nome verdadeiro do autor, que assinou Lord Auch. O nome de Bataille só veio à tona quando ele morreu, em 1962 – um desejo seu, já que o livro é cheio de traços autobiográficos.
Para exemplificar, logo nas primeiras páginas o leitor dá de cara com o texto abaixo. Esta foi a primeira experiência do narrador com Simone (e esta será a de menor grau de perversão):
Fazia calor. Simone colocou o prato [com leite] num banquinho, instalou-se à minha frente e, sem desviar dos meus olhos, sentou-se e mergulhou a bunda no leite. Por um momento fiquei imóvel, tremendo, o sangue subindo à cabeça, enquanto ela olhava meu pau se erguer na calça. Deitei-me a seus pés. Ela não se mexia; pela primeira vez, vi sua “carne rosa e negra” banhada em leite branco. Permanecemos imóveis por muito tempo, ambos ruborizados.
“O sentido último do erotismo é a morte”, diz Bataille em um texto sobre seu primeiro livro. Não é à toa que, em francês, a metáfora para o orgasmo é “petit mort” (pequena morte). E o autor leva essa expressão às últimas consequências – e sem censura, como se tudo aquilo fosse o caminho natural das coisas.
A edição da Cosac & Naif vem com três ensaios de estrelas da literatura – Michel Leiris, Roland Barthes e Julio Cortázar –, além de uma bela foto na capa.
Você já leu este ou outro livro erótico? Então divida essa experiência conosco.

Nenhum comentário:
Postar um comentário