Em ato, manifestantes são mal recebidos pelos estudantes da universidade
Por Gabriela Moncau e Otávio Nagoya
Na segunda-feira, 09 de novembro, setores de movimentos sociais e organizações feministas realizaram uma manifestação em frente à Universidade Bandeirante (Uniban) para denunciar a agressão à Geisy Arruda. A estudante de Turismo da Uniban, campus São Bernardo, foi hostilizada por cerca de 700 estudantes por ter ido à universidade, no dia 22 de outubro, com um vestido curto. Em frente ao portão da Uniban, na Avenida Rudge Ramos, de cima do carro de som, manifestantes criticavam o autoritarismo da Universidade, que expulsou a garota agredida sob a alegação de “desrespeito aos princípios éticos, à dignidade acadêmica e à moralidade”.
Os manifestantes comemoraram a revogação da expulsão de Geisy, noticiada durante o ato, porém acreditam que o fato não pode ser esquecido. “Além de revogar a expulsão, a Uniban tem que fazer uma retratação pública. Também é preciso haver uma intervenção do MEC em cima de uma universidade que recebe tantas verbas públicas e toma uma postura como essa”, afirma Sônia Auxiliadora, Secretária da Mulher Trabalhadora da CUT-SP.
Culpadas pela violência
De acordo com Tica Moreno, da Marcha Mundial de Mulheres, “ao expulsar e culpar Geisy Arruda, a universidade reforçou a visão de que as mulheres são culpadas pela violência que sofrem. Viemos denunciar não só a violência, mas a conivência da universidade.” Para Roberta Costa, diretora de mulheres da UNE e membro do setorial de mulheres do PSOL, existem dois pontos fundamentais em torno do caso envolvendo a agressão à Geisy. “O primeiro é a opressão da sociedade sobre as mulheres: o capitalismo usa fortemente o corpo da mulher para vender suas mercadorias, mas quando a mulher usa sua liberdade, ela é oprimida”. O segundo fator diz respeito à educação, explica: “Hoje o ensino é colocado como mercadoria. Essa é a lógica enraizada. A Uniban deixou isso muito claro ao ter uma preocupação apenas com os diplomas ou com quantas matrículas eles vão conseguir vender, e não pensar num currículo que vise o combate às opressões e ao machismo” conclui.
Recepção “calorosa”
A maioria dos estudantes da Uniban presentes no ato se posicionavam contra a garota. “A sociedade hoje não é machista. Se amanhã aparece um homem com as coxas de fora, ele vai ser vaiado do mesmo jeito. É natural que um homem saia sem camisa, com a calça rasgada ou a cueca aparecendo, mas eu nunca vi um homem dentro da Uniban mostrando o corpo” afirma Priscila, estudante do 4° semestre de Logística. “Eu apoio a decisão da Universidade de expulsá-la. Não era para tudo isso. Ela não tinha que ir à televisão sujar a imagem da nossa faculdade e dos alunos. Ela não é vítima de modo algum”.
Ao comentarem o episódio, muitas pessoas justificaram a hostilidade e a agressão sofridos pela garota. “Ela que gerou isso. Várias meninas usam saia, decote, isso é normal. A saia dela ia até o joelho, só que no dia ela subiu a saia e foi para andando pelas rampas. Todo mundo viu”, comenta Rogério, estudante do 1° ano de Mecatrônica.
Modelo machista
As manifestantes que foram protestar contra a Uniban foram mal recebidas pelos estudantes, disse Tica Moreno. “Um grupo de estudantes queria que a gente fosse embora. Eles disseram que estamos prejudicando a imagem deles e da Universidade. Não viemos aqui dizer que a Uniban não presta. O que não presta é o modelo machista que ela vem reproduzindo, tanto no conteúdo da sua estrutura disciplinar e curricular, quanto nas suas declarações para a imprensa”.
Na avaliação dos manifestantes, a preocupação individualista dos estudantes é resultado do entendimento de que a Universidade é uma prestadora de serviços, e não um espaço em que se questiona o funcionamento da sociedade. Para eles, tal pensamento legitima que a Universidade – suposto espaço de produção de conhecimento – opte pela repressão no lugar da educação. Para Roberta Costa, os estudantes assumem uma postura individualista: “A preocupação é ‘eu estou me formando nessa instituição, eu pago essa instituição, a imagem dessa instituição está sendo difamada’. Do ponto de vista individual, seria uma preocupação justa. Porém, a questão a ser debatida aqui é muito maior”




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